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A VOZ: DO INDIVIDUAL AO COLECTIVO E DO COLECTIVO AO INDIVIDUAL


"Sinto que seria perigoso partir na busca de um colectivo sem ter a minha individualidade formada. Precisei disso, mas com o tempo deixa de ser útil e passa a ser um obstáculo."

Nascemos únicos, damos os primeiros passos, dizemos as primeirs palavras, experienciamos sensações. O Ego toma forma. Na primeira infância, ali algures pelos 3 anos, as crianças começam a tomar consciência da separação: o EU e o OUTRO. Percebem que a mãe não é uma parte de si e começam a afirmar sua PERSONAlidade. Na adolescência esta afirmação do EU torna-se ainda mais presente. A busca pela independência (sobretudo dos pais) é essêncial.

Lembro-me da altura em que saí de casa para estudar numa outra cidade e ir a casa aos fins de semana. No regresso, a minha mãe oferecia-me uma sopa já feita que eu orgulhosamente recusava. Na base estava a ideia de que ao aceitar a sopa dela isso fosse um sinal da minha incapacidade de o fazer sozinha. Hoje, trago para casa todas as “sopas” que a minha mãe me oferece, apesar de ter ainda mais capacidade que antes de fazer as minhas próprias “sopas”.

Percebo que, nessa altura, eu precisava de me afirmar e de provar aos outros e a mim mesma que eu era independente, única, individual. Essa necessidade, com o tempo, deixou de existir. O que mudou?


Se nessa fase de crescimento eu percisava afirmar a minha identidade enquanto persona individual, agora sinto mais necessidade de conexão e de afirmar a minha identidade enquanto colectivo. Se antes eu precisava delinear as fronteiras entre EU e TU, agora sinto necessidade de esbater essas fronteiras e encontrar um outro espaço que é o NÓS.


Perdi a minha identidade? Não.


Apenas me encontro, na minha identidade, com outras identidades, com a consciência de que há uma identidade maior que EU e que TU, à qual podemos chamar NÓS.



Mas para chegar a esse colectivo precisei criar a minha individualidade. Não podia ser de outra forma. Sinto que seria perigoso partir na busca de um colectivo sem ter a minha individualidade formada. Precisei disso, mas com o tempo deixa de ser útil e passa a ser um obstáculo.


Podemos ficar ad eternum apegados à nossa própria individualidade, e outros há, que na dificuldade de se afirmarem, ficam ad eternum apegados ao colectivo.


Em qualquer dos extremos percebemos que há uma riqueza que se perde. Mas quando conseguimos, mantendo a nossa identidade, encontrar uma conexão com outras vozes, é como se a nossa voz ganhasse mais força e passasse a ter um propósito. Sentimo-nos incompletos, quando pertencemos a um colectivo que não ouve a nossa voz e sentimo-nos igualmente incompletos quando a nossa voz canta sozinha.


A VOZ é minha, mas o seu propósito é juntar-se a outras vozes. E juntos, cantamos mais alto e com mais diversidade, criando melodias que nunca conseguiríamos sozinhos.


Assim funcionam os processos colaborativos. Não se trata de criar algo comum que ignora as partes, mas de criar algo único que junta as vozes de todos e transforma os vários individuais, num colectivo. E aí, podemos dizer SOMOS UM, sabendo que o UM é algo único, muito mais que a simples soma das partes.

Nesse UM, está viva a individualidade de cada uma das partes que o compõe. E o oposto também se verifica: como num fractal, mesmo que o colectivo se parta em mil pedaços, cada um desses pedaços integra em si a composição do todo.


E para mim, esta é uma das magias da vida: eu sei fazer as minhas sopas (melhor que nunca) e anseio por trazer para casa todas as “sopas da mãe”.


E a tua voz? Como anda e por onde?

 
 
 

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